[AP] DESUMANIZAÇÃO GERAL EM PRESÍDIOS DO INTERIOR DE SP
Anarkiisto
anarkiisto em anarkopagina.org
Sexta Julho 14 16:21:56 PDT 2006
Enquanto na TV os governos tentam mostrar que os presidiarios querem
regalias e sao inaceitaveis na sociedade, nao mostram realmente o que se
passa nos presidios. Dizem apenas que eles querem celular. Pura mentira.
O Estado quer vinganca! Alguem ja viu alguma imagem do interior dos
supostos presidios de onde partiriam as ordens de rebelioes/ataques?
Veja o texto de quem vive esta realidade.
*DESUMANIZAÇÃO GERAL EM PRESÍDIOS DO INTERIOR DE SP*
A rebelião é uma das poucas formas que a comunidade carcerária tem de
defesa própria, de reivindicar seus direitos e ter sua voz ouvida.
Isso é fato. Em qualquer cadeia do mundo, o poder (Estado/governo) e
sua força policial/repressora viola a dignidade do ser humano encarcerado.
A rebelião surge então como um ato de resposta. Uma reação.
Depois das rebeliões ocorridas recentemente em 2 presídios do interior
de São Paulo (Araraquara e Ribeirão Preto), as direções resolveram
desumanizar ainda mais a situação dos detentos. Nas rebeliões
ocorridas nessas unidades, houve a destruição de vários pavilhões (o
que é compreensível nessa situação). Quando o ambiente fica destruído,
a atitude mais certeira seria a de imediata transferência dos detentos
para outras unidades. Mas num sistema totalmente errado e desumano, é
ilusão esperar que haja algo menos cruel.
Diante dos fatos ocorridos, o Estado, através da SAP (Secretaria de
Administração Penitenciária) decidiu barbarizar.
Superlotou a superlotação e soldou a tranca. Na penita de Ribeirão
Preto, onde 3 dos 4 pavilhões foram destruídos,
amontoaram os 1.050 detentos em um único pavilhão, onde a capacidade é para
198 pessoas, no máximo. Com a recente transferência de 260 presos para
a penita de Balbinos, hoje
tem 790 detentos aglomerados no raio, o que continua sendo um absurdo
inaceitável.
No Anexo de Detenção Provisória de Araraquara, onde também foram
destruídos 3 dos 4 pavilhões, se encontram hoje amontoados em um único
pavilhão os 1.600 detentos, onde a capacidade máxima é de 160 pessoas. A
direção do presídio soldou todas as portas do pavilhão.
Com as portas soldadas, ninguém entra e ninguém sai. Aglomerados feito
lixo, os homens presos estão recebendo comida através de
um tipo de compartimento no teto, que é aberto apenas para a passagem da
comida.
Com o presídio lacrado, todos os julgamentos estão sendo adiados. Assim,
os processos de muitos detentos já foram prejudicados e muitos
outros ainda serão. Estão praticamente sem vida em suas sobrevivências.
O juíz da Vara de Execuções Penais, José Roberto Bernardi Liberal, diz que
não existe a possibilidade de tirar 1 preso da cadeia, com o argumento de
que não dá para entrar lá e tirar 1 no meio de 1.600.
Nem pelo teto dá para sair porque tem grade.
Esse mesmo juíz ainda afirma que não dá nem para contar quantos julgamentos
já foram adiados (por serem muitos) e que vários outros ainda serão.
A SAP (Secretaria de Administração Penitenciária) disse que não há previsão
para transferências e nem para o início das reformas dos pavilhões.
Esses órgãos fazem essas afirmações desumanas na maior tranqüilidade...
Como se isso fosse aceitável. Como se seres humanos presos pudessem
(tentar) sobreviver nessa situação de lixo.
O sistema carcerário, desde sua idéia, já é desumano.
Imagine então agravando propositalmente cada um de seus problemas
(superlotação, falta de espaço, morosidade e patifaria judiciária,
humilhação, ...)
A superlotação é um dos problemas mais presentes nas prisões.
Praticamente todas as unidades prisionais do país estão entupidas de gente.
É atacante pensar que toda a população carcerária de uma cadeia está
espremida num único raio.
Que essa mesma população, além de estar presa, está soldada, numa situação
pique quarentena: ninguém pode sair, ninguém pode entrar.
Sem condição nenhuma de se locomover, de tirar suas cadeias com o mínimo de
dignidade que seja.
Um tratamento que nem sequer um animal de zoológico recebe.
Seres humanos tratados como lixo.
Parece pesadelo, mas é fato real.
É fato cruel, perturbador, humilhante, torturador.
Mais uma vez o Estado é criminoso, mais uma vez nada se uove falar sobre o
fato, mais uma vez justiça não é feita.
Essa foi uma atitude que violou desde um dos artigos mais conhecidos da
Declaração Universal dos Direitos Humanos, onde consta que "ninguém será
submetido a tortura ou a tratamento ou castigo cruel, desumano ou
degradante".
Essa vingança/castigo do Estado confirma o que todos os seres pensantes já
sabem: que a lei e a (in)justiça só funcionam em benefício dos
detentores do
poder.
E que esses poderosos, quando querem castigar e torturar, infringem no
sossego.
Sofrimento gera revolta.
Uma pessoa que é torturada em diversos sentidos, vai sair pro mundão (com
toda razão) com muito ódio na mente.
O Estado se omite. Se esquiva de sua obrigação. Não aceita gastar parte de
sua verba nessas obras que são urgentes, prioridade.
O Estado é o principal inimigo do povo.
Quem é que cria o "monstro"? O próprio sistema.
Atrasar + o lado da comunidade carcerária é uma opção de vingança, de
sadismo.
Tratar o ser humano preso que nem lixo é humilhante, revoltante.
É inaceitável.
A cadeia não é o que a sociedade pensa. Lá se paga muito mais que a
sentença.
Antes que querer julgar, tente se imaginar, por apenas 1 segundo, estando
nessa situação, estando naquele lugar.
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Por: Talita (Justiça no Cárcere) // Junho de 2006
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Marcio Malacarne
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