[AP] Em defesa da mata atlânticacrianças e mulheres param tratores da Aracruz Celulose em Linhares

Anarkiisto anarkiisto em anarkopagina.org
Segunda Junho 19 08:47:13 PDT 2006


*Em defesa da mata atlântica, crianças e mulheres param tratores da
Aracruz Celulose em Linhares *
------------------------------------------------------------------------
Ubervalter Coimbra e João Torezani


Em plena Copa do Mundo e no final da sexta-feira (16), próximo do fim do
expediente dos órgãos ambientais, a transnacional Aracruz Celulose
colocou em operação 27 tratores para destruir a mata atlântica em
adiantado estágio de regeneração e na cabeceira da nascente do córrego
Jacutinga, na região de Farias, em Linhares. A empresa não contava com a
reação de mulheres camponesas - uma delas, no nono mês de gravidez - com
suas crianças e maridos, que se colocaram em frente às máquinas, com
risco de suas vidas, para parar o desmatamento que já havia destruído 50
hectares da vegetação.

A Aracruz Celulose enviou quatro membros de sua milícia particular, a
Visel, ao local, no final da tarde. Os milicianos, armados, contaram com
cobertura de quatro policiais militares. Um reforço de seis militares
chegou a seguir, às 17h30. Apenas seis trabalhadores, inclusive uma
camponesa no nono mês de gravidez, estavam no local. Afirmaram por
telefone celular que podem ser vítimas de violência, mas afirmam que não
vão deixar a Aracruz Celulose retirar as árvores.

No início deste ano a Aracruz Celulose patrocinou violência contra os
índios, dos quais duas aldeias foram destruídas. Contou com proteção da
Polícia Federal, cujo efetivo se hospedeu em instalações da empresa.

Aos camponeses, e em nome da Aracruz Celulose, o responsável pelo
desmatamento afirmou que estava autorizado pelo Ibama. Mentiu, pois o
órgão federal não dá autorização para desmatamentos no Espírito Santo. É
ao Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal (Idaf) que cabe analisar
pedidos desta natureza.

Mas mesmo o Idaf não pode ferir a legislação, tanto a federal como a
estadual, que proíbe e a destruição de vegetação próximo a nascentes ou
em adiantado estágio de regeneração, e, ainda, em áreas de grande
declividade.

A área que a Aracruz Celulose está destruindo foi vendida à empresa por
outra transnacional, a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), segundo
informou uma das coordenadoras do Movimento dos Pequenos Agricultores
(MPA) no Estado, Cristina Soprani. Cristina está no nono mês de gravidez.

Ela relata que na área mais de 30 famílias de agricultores resistem, há
gerações, ao avanço dos plantios de eucalipto e de cana-de-açúcar. Eles
acompanham e protegem a recuperação da mata atlântica na área, o que vem
ocorrendo há cerca de 30 anos.

Nas proximidades da cabeceira do Córrego Jacutinga, a Aracruz Celulose
destruiu na tarde desta sexta-feira árvores nativas com mais de seis
metros de altura, que conseguiram resistir e crescer em meio ao plantio
de eucalipto.

O gerente substituto do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos
Naturais Renováveis (Ibama) no Espírito Santo, Jacques Passamani,
informou no final da tarde que acionou a fiscalização do órgão para ir
ao local e examinar a situação. Afirmou que no Espírito Santo o Ibama
não dá licença ambiental para desmatamento e que cabe ao Idaf autorizar,
ou não, desmatamentos.

Afirmou que a fiscalização do Ibama pode ir na região neste final de
semana ou no máximo na próxima segunda-feira (19). Vai confirmar se a
Aracruz Celulose tem licença para fazer o desmatamento e confirmar se
houve desmatamento de nascentes, ou de áreas de proteção ambiental.
Lembrou que nenhum órgão pode autorizar o desmatamento em área de
proteção ambiental, mas ressaltou que só poderá confirmar as informações
que lhe foram repassadas após a fiscalização do Ibama vistoriar o local.

A chefe da Fiscalização do Ibama, Patrícia Gomes Salomão, informou às
17h18 que comunicou e pediu a ação no local da Polícia Ambiental. Fez
contato com o tenente Patrício Bernabé Fiorim. Ele ficou de acionar o
pelotão de São Mateus para as providências.

A Aracruz Celulose destruiu 50 mil hectares de mata atlântica no
Espírito Santo. E os desmatamentos continuam: a empresa foi multada em
2006 pelo Ibama na Bahia em R$ 606 mil, por plantio de eucalipto de
202,92 hectares na Fazenda Santa Maria, próxima à área do entorno do
Parque Nacional do Descobrimento, no município de Prado, extremo sul do
Estado.

Em dezembro do ano passado, a Veracel (onde a Aracruz Celulose detém 50%
das ações e localizada no sul da Bahia), foi multada em R$ R$
360.900,00, por dificultar a regeneração natural de florestas de mata
atlântica em 1.203 hectares. A Veracel foi multada pelo Ibama por não
cumprimento do que determina a Lei 9.985/2002, que instituiu o Sistema
Nacional de Unidades de Conservação (SNUC). Pelo SNUC, e pela
determinação 013/90 do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama), não
podem ser realizados plantios de espécies exóticas em dez quilômetros de
raio da zona de amortecimento dos parques nacionais.

Às 17h45 um dos coordenadores do MPA em Linhares, Elias Alves, informou
que os efetivos da Polícia Militar relataram que a Aracruz Celulose
apresentou queixa contra os trabalhadores que se colocaram em frente aos
tratores da empresa na Delegacia de Polícia de Linhares.

    	

*Uma empresa bilionária*

A transnacional Aracruz Celulose teve lucro líquido de R$ 3,17 bilhões
nos últimos três anos. O lucro da empresa é favorecido pelos governos
federal e estadual desde sua implantação. Até hoje, os governos federais
emprestam dinheiro com juros baixos, até 2% ao ano. O mais recente, com
recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT).

A Aracruz Celulose também tem lucros às custas da Receita Federal: tomou
ilegalmente R$ 211 milhões, não considerados os juros, de incentivos
fiscais da Agência de Desenvolvimento do Nordeste (Adene). Os recursos
são para aplicação em empresa com sede no norte e noroeste capixaba, o
que não é o caso da empresa.

Também lucra com a apropriação indébita e exploração intensiva de
territórios quilombolas, índios e de pequenos proprietários rurais.
Ocupou e mantêm em seu poder terras devolutas, que são públicas.

Apesar de seus lucros astronômicos, a empresa emprega pouco. No final de
2005, tinha apenas 2.249 empregados próprios, e 7.988 terceirizados,
como informa em seu balanço.

O controle acionário da Aracruz é exercido pelos grupos Lorentzen -
ligado à Coroa norueguesa - Safra, Votorantim (28% do capital votante
cada) e pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social -
BNDES -, com 12,5% do capital). O presidente da Aracruz Celulose é
Carlos Augusto Lira Aguiar, engenheiro químico, nascido em 1945, em
Sobral, no Ceará.


-- 
Seja livre: use Linux, Esperanto e Anarquia
http://www.anarkopagina.org

-------------- Próxima Parte ----------
Um anexo em HTML foi limpo...
URL: http://lists.mutualaid.org/pipermail/anarkopagina/attachments/20060619/3c64976a/attachment-0001.html


Mais detalhes sobre a lista de discussão Anarkopagina