[AP] O Desenvolvimento é Insustentável
Anarkiisto
anarkiisto em anarkopagina.org
Quinta Fevereiro 8 08:46:40 PST 2007
*O Desenvolvimento é Insustentável*
Parece novidade mas não é: a /crise ecológica/ em que vive o
planeta Terra, causada majoritariamente pela /ação humana/, já é assunto
batido e rebatido na mídia mundial desde o fim dos anos 80.
"Superaquecimento global" é a nova palavra de ordem para substituir
outras como "efeito estufa" ou "buraco na camada de ozônio".
Antes, achava-se que o fim da vida na Terra viria pela bomba atômica.
Depois, foi-se lentamente percebendo que a bomba atômica não seria
necessária.
Não se trata de propagandear o apocalipse. Afinal, "Ecologia"
não é uma religião e os ecologistas não são uma seita cujos problemas
não nos afetam. E o fim não está próximo: a agonia da raça humana será
longa e próspera.
Ecologia é uma "realidade", e disso sabem muito bem os
políticos e economistas "realistas" (seguidores do ideal materialista)
que procuraram já há alguns anos a ajuda dos ecólogos para criar belos
conceitos - enxertando, como num ciborgue, capitalismo na ecologia -
tais quais o tagarelado /desenvolvimento sustentável/.
O /desenvolvimento sustentável /seria a fórmula mágica de
levar o mercado, a evolução material e o acúmulo de capital para além
das fronteiras sagradas de onde a _suposta_ /separação entre humano e
natureza/ não teria saído. O elo perdido mítico representado por
personagens como índios, ribeirinhos, quilombolas, caipiras, nômades /e
todo o tipo de gente não submetida ao regime formal e alienante da
propriedade e do trabalho /deveria enfim ser transformado em mercadoria
(seja pela monocultura da soja ou do pasto, seja pela exploração da
diversidade sábia dos "nativos"), dar lucro e ser /_incluído_/ dentro do
sistema capitalista, realizando sua utopia total.
Entretanto, para o mal não só dos incluídos mas também dos
excluídos, o planeta resolveu reagir. Aliás, ele sempre reage ou, melhor
dizendo, todos reagem. Mas só agora é que os "realistas" estão
percebendo isso. Perceber é fácil... É fácil falar em /consciência
ecológica/. Mas não adianta nada ter consciência se ela não virar /ação
ecológica.
/
A América Latina tem sido apontada por especialistas multinacionais como
o grande seleiro da renovação esquerdista mundial. Uma esquerda
realista, não tenha dúvida, assim como não deixava de ser realista seu
vultoso patriarca, Karl Marx. Certamente Marx não seguia o mesmo
realismo religioso de um Max Weber, para quem o capitalismo triunfaria
tragicamente até o fim da última gota de combustível fóssil (se
conhecesse o biocombustível, não seria tão otimista).
Mas não deixava de julgar realista - e necessária - a evolução,
o desenvolvimento e a vitória do capitalismo para que, enfim, o
Homem (com H maiúsculo, esse Marx!) se libertasse através do
comunismo e pudesse progredir, ainda triunfante, dominando a
natureza.
Esse foco na dominação da natureza (uma desumanização da
"natureza": transformação dos outros em coisa), no valor
trabalho, no progresso, marcou o pensamento do século XIX,
esquecendo-se um pouco do que os pensadores diziam um século
antes ("nada se cria, tudo se transforma": se se cresce de um
lado, se decresse de outro).
Não é que ecologia não fosse o forte de Marx. É que, aplicada
"hoje", a teoria de Marx é anti-ecológica.
Pois assim como Marx achava que um país desenvolvido deveria
subjugar um país não desenvolvido para colocá-lo no caminho da
revolução, agora Lula acha que deve transformar a Amazônia em
terra produtiva. E acha, como seus antecessores no poder, que o
Brasil deve continuar crescendo (crescer, crescer, crescer até
fazer PAC!).
E não está sozinho: o foco dos presidentes esquerdistas
latino-americanos no combustível, no petróleo da Venezuela, no
gás da Bolívia, no álcool do Brasil, e na inclusão de todos
aqueles que pensam diferente, mostra que, por mais que lhes
neguem esse privilégio, eles são, sim, verdadeiros
representantes da tradição marxista.
Outro dia, num discurso para estudantes, o presidente Lula
insistiu que eles agora iriam entrar para o mundo "real", na
vida "real", do "trabalho real", e ele não estava falando da
moeda inventada por seu antecessor.
Afinal, o fundamento da ideologia materialista de Lula é o valor
trabalho. Nada mais "real" que o trabalho. Trabalhar muito, dar
trabalho para todos, ninguém pode ser vagabundo. Vagabundo, não
vender sua força de trabalho, andar livremente por aí, como um
nômade, vagando... colhendo, coletando, caçando...
O orgulho "realista" de Lula, contudo, impede-lhe de cair na
real: a Amazônia não agüenta tanto desenvolvimento.
O Nordeste, em 10 anos, poderá se tornar um deserto. O Sudeste,
em 10 anos, poderá ter suas cidades praianas invadidas pelo mar
(será o fim dos farofeiros e do fim-de-semana na praia) -
cafezinho, então, pode esquecer: nosso solo se tornará infértil
para o café.
Em suma: se o desenvolvimento continuar, em 10 anos a vida no
Brasil e na terra será muito pior. O desenvolvimento é
indesejável, porque é insustentável.
Pois a América Latina parece estar querendo competir com a China
para ver quem chega primeiro no começo do fim do mundo.
Mas para além do fatalismo, existem soluções muito menos
apocalípticas e muito mais sustentáveis que nossos presidentes
poderiam adotar.
Pensemos em algumas delas, aleatoriamente (eu penso aqui e você
pensa aí):
- Instaurar o regime de trabalho de 3h diárias. Além de
diminuir o desemprego, diminuiria também a quantidade de horas
de trabalho no mundo, e a quantidade de queima de combustíveis
fósseis.
- Substituir o transporte urbano motorizado por bicicletas
coletivas (como aquelas com 5 acentos ou mais). Além de
diminuir a queima de combustíveis fósseis, aumentaria a saúde e
a alegria de viver das pessoas.
- Interromper o saneamento básico baseado em água e esgoto e
substituí-lo pela permacultura. A permacultura é uma maneira
ecológica de habitar, que utiliza meios como banheiro seco,
adubo orgânico, horticultura, reaproveitamento de água da chuva
etc., tornando as casas realmente sustentáveis, atacando
problemas como a falta de água e a falta de comida.
Esses são três exemplos simples, práticos e bem possíveis.
Se em vez de colocar uma pessoa trabalhando 16 horas por dia,
colocassem 5 trabalhando três hora por dia, alguém morreria de
fome? Se em vez de passar 3h dentro de um ônibus no
congestionamento, uma pessoa passasse 1h pedalando na
bicicleta, alguém morreria de asma, bronquite ou tédio? Se em
vez de instalar água e esgoto nas casas, fosse encampada a
permacultura, alguém morreria de dengue? Trabalhando menos,
quem não teria mais tempo para cuidar de uma hortinha e vagar
por aí? Alguém pagaria caro por isso? Quem sairia perdendo?
Pergunte-se: quem sairia perdendo com isso? E responda: os
governos que adotam o desenvolvimento, o combustível "fócil" ou
"biológico" e a inclusão dos vagabundos estão do lado de quem?
Escrito por Guilherme L J Falleiros
05/02/2007
http://punkcanibal.zip.net/
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